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Avaliação psicológica da CNH pode salvar a saúde mental de milhões de brasileiros

Para a maioria dos brasileiros, o primeiro contato com um psicólogo não acontece em uma clínica tradicional, mas em uma clínica do Detran. É naquela avaliação psicológica obrigatória para tirar ou renovar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) que grande parte da população encontra um profissional de psicologia pela primeira, e muitas vezes única, vez na vida. Neste Setembro Amarelo, esse dado ganha uma dimensão inquietante quando avaliado à luz do cenário brasileiro. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país com maior proporção de pessoas ansiosas no mundo, com 9,3% da população, e o segundo das Américas com maior prevalência de depressão. Ainda assim, apenas 5,1% dos brasileiros fazem psicoterapia, conforme pesquisa do Instituto Cactus com a AtlasIntel.

A pesquisa revelou que cerca de 19% dos brasileiros chegaram a se consultar com um psicólogo ou psiquiatra no último ano. Porém, a grande maioria não passou de cinco encontros, segundo o Índice Instituto Cactus-Atlas de Saúde Mental (iCASM). Isso acontece porque a oferta de terapia no SUS ainda é muito inferior à demanda e os planos de saúde tradicionais têm limitações na oferta da psicoterapia.

É nesse contexto de crise que a avaliação psicológica para obtenção e renovação da CNH assume um papel que vai muito além da fiscalização e funciona como a porta de entrada para o cuidado com a saúde mental de grande parte da população. “A avaliação psicológica do trânsito é, para milhões de brasileiros, a única oportunidade de alguém capacitado identificar que algo não vai bem na saúde mental deles. Quando retiramos ou esvaziamos essa avaliação, não estamos apenas enfraquecendo a segurança no trânsito. Estamos fechando uma porta que poderia ser a saída para pessoas em sofrimento silencioso”, comenta a psicóloga do Tráfego e especialista em segurança viária Adalgisa Lopes.

O que acontece na sala de avaliação

Na prática, a avaliação psicológica vai muito além de testar reflexos e coordenação motora. A diretora da Associação de Clínicas de Trânsito de Minas Gerais (Actrans), Giovanna Varoni, explica que o profissional está atento a uma série de sinais que podem indicar desde quadros ansiosos leves até sofrimento psíquico grave. “Durante a avaliação, observamos padrões de comportamento, respostas emocionais e sinais que a pessoa muitas vezes nem reconhece como sintoma. Já tivemos casos em que o examinando chegou aparentemente bem, mas revelou uma ansiedade que ninguém havia percebido. Esse paciente foi orientado a buscar tratamento. Provavelmente, sem aquele exame, não teria buscado ajuda profissional”.

Giovanna detalha que os psicólogos do Tráfego podem identificar sinais de ansiedade crônica, episódios depressivos, uso de substâncias e  comportamento agressivo. Quando algo é detectado, o profissional orienta o paciente a buscar atendimento médico e psicológico. “Fazer a avaliação psicológica é forma de cuidado. A pessoa precisa estar bem para conduzir um veículo, e se ela não está, o nosso papel é orientar e encaminhar para que ela busque ajuda”, afirma.

Quando a mente adoece, o trânsito adoece junto

A presidente da Actrans-MG chama atenção para uma conexão que a sociedade ainda trata como se fossem mundos separados: o adoecimento mental e o risco no trânsito. “Um motorista com depressão não está apenas triste. Ele pode ter comprometimento da atenção, lentidão de raciocínio, impulsividade aumentada e maior propensão ao uso de substâncias para tentar compensar o que sente. Tudo isso vira risco real nas estradas e nas cidades. A saúde mental e a segurança viária são inseparáveis.”

Os especialistas ressaltam que o problema é particularmente grave entre motoristas profissionais. “O caminhoneiro que passa semanas longe da família, sob pressão de prazos, dormindo e se alimentando mal e sem acesso a nenhum serviço de saúde mental, tem naquela visita à clínica de trânsito a única janela de cuidado. Se passamos a ver essa avaliação como burocracia a ser eliminada, estamos negando a esse trabalhador o único momento em que alguém pergunta como ele está”, comenta Adalgisa.

Escutar é estar presente

Para Adalgisa, a intersecção entre o tema da campanha Setembro Amarelo e o trabalho dos psicólogos do trânsito é direta. “Escutar é estar presente. É exatamente isso que fazemos na avaliação psicológica. Estamos presentes para escutar o que nem sempre é dito com palavras. Um silêncio, uma hesitação, um olhar podem ser o primeiro sinal de que alguém precisa de ajuda. E se não estivermos lá, quem estará?”, questiona.

A especialista complementa o raciocínio com um dado que resume a dimensão do problema. “Se apenas 5% dos brasileiros têm acesso à terapia e a maioria da população passa pelo exame psicológico do trânsito em algum momento da vida, não precisamos de muito para perceber onde está a maior janela de detecção precoce que este país tem. A questão é se vamos enxergar essa janela ou se vamos continuar tratando como um mero trâmite burocrático”, finaliza.